Saturday, July 15, 2006

Princípios gerais

Fazer agricultura de uma forma ecológica implica olhar para o que acontece na natureza, e tentar, sempre que possível, imitar e utilizar processos naturais que ocorrem em ecossistemas em equilíbrio. No entanto, devemos ter em conta que a agricultura é uma intervenção do homem no ecossistema, em que este ecossistema é mantido nos estádios mais primários de sucessão ecológica, para aumentar a sua produtividade. Vamos então jogar com duas forças opostas: ecossistemas mais simples, em que se reduz ao mínimo o número de espécies presentes, podem ser mais produtivos mas tendem para o desiquilíbrio - é o que se passa nas monoculturas; ecossistemas mais complexos têm uma maior capacidade de manter uma certa estabilidade e reduzir a intervenção humana, principalmente em termos de aplicação de factores de produção não originários do ecossistema - os químicos de síntese - que tantos problemas causam em termos de saúde ambiental e humana. Mas como é que isto se faz?

Monoculturas - imagem daqui

Olhemos para a natureza e para o modo como o homem conviveu com ela ao longo do tempo. Depois de milhares de anos como caçador recolector descobriu que podia controlar a sua disponibilidade de alimentos controlando o ciclo de vida dos organismos que lhe serviam de alimento, animais e plantas. Este processo poderá ter sido gradual, no entanto o início da agricultura no ocidente (Europa - Ásia) e consequente sedentarização, é normalmente localizado na antiga Mesopotâmia, há cerca de dez mil anos. Pensa-se que após o fim da última glaciação o clima ter-se-há tornado mais seco, com estações secas mais longas. Isto induz períodos de dormência, que nas plantas anuais significa armazenamento de nutrientes em sementes ou tubérculos. Estes são óptimas fontes de alimento para vários organismos, entre os quais o homem, que terá passado gradualmente a controlar o ciclo de vida destas plantas, isto é, a cultivá-las. Para isso teve que resolver ou contornar alguns problemas: um deles a competição pelo espaço com outros organismos (aquilo a que hoje chamamos a competição com infestantes, mais conhecidas por ervas daninhas), outro a competição com os outros organismos que se alimentavam das mesmas plantas (aquilo a que hoje chamamos pragas e doenças). Além disso foi necessário compreender as necessidades destas plantas, as épocas mais apropriadas para semear, plantar ou colher, e as necessidades em água e nutrientes dessas plantas.

A competição pelo espaço com outros organismos poderá ter sido uma das primeiras formas de impacto negativo do homem sobre os ecossistemas: a destruição do coberto vegetal em zonas declivosas retira a protecção da camada biologicamente activa da crosta terrestre, o solo. Sem esta protecção o solo desagrega-se facilmente e é arrastado pela água e pelo vento. Isto terá acontecido ao longo de séculos de má gestão do solo, principalmente no sul da Europa. No entanto em muitos locais do mundo o homem criou sistemas de terraços e técnicas de cobertura do solo que minimizam esta erosão.

Agricultura em terraços - imagem daqui

A competição com outros organismos foi um problema contornado pela tolerância a algumas perdas, e pela observação dos 'hábitos' desses organismos. Descobriu-se por exemplo que alguns ficavam no solo até à cultura seguinte, portanto seria necessário não cultivar a mesma coisa duas vezes no mesmo sítio sem guardar um intervalo de tempo. Assim se inventaram as rotações. Descobriu-se que algumas plantas eram mais sensíveis que outras ao ataque destes organismos. Por isso, sempre que possível guardava-se a semente que produzia melhor, e esta seria também a menos susceptível a ser atacada por outros.


Estas são duas boas práticas hoje recomendadas pela agricultura biológica: a rotação de culturas e a selecção e utilização de cultivares resistentes. Infelizmente esta ultima medida foi largamente descuidada no século XX pelos melhoradores de plantas e animais, uma vez que o recurso a químicos dispensava a resistência a pragas e doenças. Por isso se aumentou tanto a dependência dos químicos. O desaparecimento das variedades tradicionais (cultivares é o termo correcto quando estas são obtidas pelo homem) torna ainda mais difícil o acesso a variabilidade genética que poderia conter resistências a doenças e pragas, e o monopólio do comércio de sementes por grandes empresas que também comercializam químicos pode ser muito perigosa. (Para mais informações sobre este assunto ler aqui , aqui e aqui).

Outras observações permitiram adoptar medidas pontuais para cada cultura para contornar os ciclos das pragas e doenças. Sem os conhecimentos científicos a que tivemos acesso nos últimos séculos este processo dependia da observação atenta e da tentativa e erro, processo que naturalmente não deve ser posto de parte, tendo hoje a ajuda da ciência. Neste aspecto os agricultores de hoje têm a vida facilitada. A maior parte das pragas e doenças que atacam as culturas está bem estudada e caracterizada. São conhecidos os ciclos de vida e os factores que influem nestes. Existem, para grande parte das pragas e doenças, medidas ecologicamente aceitáveis e eficientes na prevenção e controle destes organismos, que implicam no entanto um bom conhecimento destes e da sua interacção com o ecossistema. No passado as pragas e doenças provocaram ocasionalmente grandes perdas e consequentemente fomes e mudanças sociais (por exemplo, a grande fome irlandesa do século XIX foi provocada pelo míldio da batateira, Phytophthora infestans). Hoje o conhecimento científico permite-nos ter mais conhecimento sobre os organismos, mas também sobre a nossa vulnerabilidade perante as mudanças aceleradas dos ecossistemas e o seu impacto sobre o equilíbrio ecológico, que também se sente nos ecossistemas agrários.

O problema de suprir as necessidades das plantas cultivadas foi sendo resolvido pelo homem ao longo dos séculos através da observação e da experimentação. Terá provavelmente observado que a proximidade com matéria orgânica em decomposição ou semi-decomposta favorecia o desenvolvimento das plantas. A domesticação de animais para alimentação e para o trabalho fornecia grandes quantidades de matéria orgânica de óptima qualidade, e portanto uma boa utilização para esta matéria orgânica que de outra forma se tornaria num resíduo indesejável. Sabemos hoje que os excrementos animais são ricos em azoto, um dos nutrientes necessários em maior quantidade, dificilmente armazenados no solo, e que portanto devem ser repostos regularmente neste. Sabemos também que uma das melhores formas de suprir a nutrição das plantas é fazê-lo pela mesma forma que acontece na natureza, isto é através da decomposição primária e secundária da matéria orgânica. Sabemos ainda que o húmus é uma forma estável de matéria orgânica, que se forma pela decomposição de matéria orgânica vegetal, e que antes de se decompor definitivamente dá ao solo excelentes propriedades. Por outro lado a presença dos inúmeros organismos que participam na decomposição permite relações ecológicas complexas que influem na abundância de organismos indesejáveis para o agricultor. O húmus forma-se quando a decomposição de matéria rica em celulose se dá com quantidades apropriadas de azoto. As camas animais, uma mistura de plantas e excrementos eram uma boa fonte de húmus. No entanto poderiam ser demasiado ricas em azoto e 'queimar' as plantas, razão pela qual os agricultores aprenderam a fazer pilhas deixadas a 'curtir' durante algum tempo - ou seja a compostar.

Húmus - imagem daqui

Estas são então as áreas de maior intervenção do homem no ecossistema agrário: a fertilização e a protecção das culturas. As formas de o fazer de uma forma ecológica serão exploradas nos próximos posts. É, no entanto, sempre importante olhar a agricultura como uma intervenção num ecossistema, perceber as complexas relações nesse ecossistema, e entre a intervenção humana e as suas consequências, directas e indirectas. Posted by Picasa

11 Comments:

Blogger ez said...

Na horta e jardim que tenho (no Ribatejo), optei sempre por controlar ou evitar pragas ou estimular cultivos, através de métodos bio-ecológicos.
Sei muito pouco de tal matéria, mas aos poucos e sempre que surge alguma nova situação, vou-me informando e tentando resolver os problemas "a bem".
Comprei umas larvas de
"Aphipar"
para combater o pulgão que tinha nos "loendros" e outras plantas.
Acabou por desaparecer (embora ache que também se deveu a dois ou três dias de chuva... e ao remédio água/detergente)

4:18 AM  
Blogger Tat Wam Asi said...

E é esta fantástica sabedoria que foi passando de geração em geração de pessoas que trabalharam no campo, que aprenderam com ele e que sobreviveram dele...que infelizmente se está a perder. Silenciosamente.

bjs

2:34 AM  
Blogger Jardineira aprendiz said...

E aos auxiliares Ez, também trabalham! Falamos disso depois!

É verdade Tat wam asi, e não é só a sabedoria ligada à agricultura, mas a todo o modo de vida. Às vezes lembro-me de coisas que a minha avó falava e eu pensava, tenho que escrever isto. Ela morreu com 95 anos e eu nunca escrevi. Tantas coisas que provavelmente se perderam, da sabedoria de uma mulher que lidou com a vida sem saber ler...

3:00 PM  
Blogger eco_bio_veg said...

Oi, bom texto! Mas queria acrescentar-lhe umas ideias :)
Dizes que um sistema mais simples como a monocultura é mais produtivo que um sistema mais diversificado e que o problema é que a monocultura tende para o desequilíbrio.
Mas os estudos científicos demonstraram consistentemente que os sistemas agrícolas de monocultura são na verdade muito menos produtivos que os de policultura. A única vantagem das monoculturas é que facilitam o trabalho dos agricultores (são mais fáceis de cultivar, mais fáceis de tratar com químicos, mais fáceis de aplicar grande maquinaria, mais fáceis de colher e processar), o que se traduz numa redução de custos no imediato para o agricultor, mas em termos de produtividade não traz qualquer vantagem.
A diferença de produtividade pode ser tão grande que me lembro de ter lido num artigo científico que uma pequena horta com dezenas de variedades diferentes pode ter uma produtividade 400% superior a uma exploração intensiva de monocultura.
Também é preciso ter cuidado quando se fala em produtividade (quantidade de alimento produzido por área de terreno), porque este factor é muitas vezes usado em defesa da agricultura convencional (porque nalguns casos é superior em relação à agricultura biológica, em condições comparáveis), mas não tem em conta os recursos necessários e impactos causados para obtenção dessa produtividade. Sempre que possível deve-se falar em eficiência de produção em vez de produtividade, pois a eficiência reflecte o balanço entre a produtividade e o consumo de recursos e geralmente demonstra que a agricultura biológica é muito mais eficiente a produzir alimentos que a convencional.
Um abraço amigo.

2:35 AM  
Blogger Jardineira aprendiz said...

Olá Irina, tens razão, é um bocado simplista pôr as coisas assim, e acabei por lhe dar o sentido que a convencional lhe dá. Seria muito interessante explicar melhor o significado (ou os significados) dados ao termo produtividade e à eficiência, porque a interpretação de eficiência da convencional e da biológica fazem toda a diferença, uma vez que a convencional ignora bastantes factores importantes. Agora estou numa fase complicada em relação a tempo disponível, mas não vai ficar esquecido.
beijo

4:30 AM  
Blogger Alma da Terra said...

Obrigado pela visita, seja bem Vinda!
***********
Um beijo de Luz em seu coração!

8:18 AM  
Blogger Lâmina d'Água, Silêncio & Escriba said...

Porque não consigo maia abrir teu Cores da Terra??? Tento, tento e aparece apenas uma folha em branco...

Sniff... Sniff... Sniff...

Beijinhos,
Cris

Uma vez me aconteceu isso e quem resolveu foi o Desambientado...

8:52 PM  
Blogger DE PROPOSITO said...

Passei por aqui, olhando. Seria melhor que fosse até Águeda, mas no momento é impossível.
Fica bem.
Manuel

1:10 AM  
Blogger O Sibarita said...

Você falou e disse tudo! É verdade sim! Embora eu não tenha nascido em cidade do interior, (No Brasil é assim) onde, a agricultura é meio de subsistência através da monocultura familiar, sempre tive curiosidade sobre o assunto. Muito bom seu texto!

Obrigado por ter ido no nosso blogue que já tem coisa nova, quando tiver um tempinho vá se deliciar... Assim espero!

bjs
O Sibarita

5:08 PM  
Blogger Nilson Barcelli said...

Nasci e fui criado num ambiente agrícola.
Mesmo não percebendo nada do assunto, são-me familiares muitas das descrições que faz, com um rigor e uma qualidade de linguagem notáveis (dirá, não admira, sou formadora...).
A continuar de acordo com a metodologia que estabeleceu no início do blog, de resto amplamente confirmada nestes "Princípios Gerais", ao fim de algum tempo os posts publicados serão capítulos de um magnífico livro. Recomendo-lhe, por isso, um esquema qualquer de defesa de direitos de autor (SPA?), para que um dia a sua propriedade (esta) possa dar outros frutos...
Beijinhos e bfs.

7:09 AM  
Blogger sininho said...

Gostaria de dar os parabéns pelo excelente blog. Eu gosto imenso de agricultura, jardinagem (basicamente tudo o que implique mexer na terra, especialmente com as mãos, eh eh), no entanto estou ainda no começo desta jornada.
Mais uma vez parabéns e vou passar a visitar assiduamente.

3:48 PM  

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