Princípios gerais
Monoculturas - imagem daqui
Olhemos para a natureza e para o modo como o homem conviveu com ela ao longo do tempo. Depois de milhares de anos como caçador recolector descobriu que podia controlar a sua disponibilidade de alimentos controlando o ciclo de vida dos organismos que lhe serviam de alimento, animais e plantas. Este processo poderá ter sido gradual, no entanto o início da agricultura no ocidente (Europa - Ásia) e consequente sedentarização, é normalmente localizado na antiga Mesopotâmia, há cerca de dez mil anos. Pensa-se que após o fim da última glaciação o clima ter-se-há tornado mais seco, com estações secas mais longas. Isto induz períodos de dormência, que nas plantas anuais significa armazenamento de nutrientes em sementes ou tubérculos. Estes são óptimas fontes de alimento para vários organismos, entre os quais o homem, que terá passado gradualmente a controlar o ciclo de vida destas plantas, isto é, a cultivá-las. Para isso teve que resolver ou contornar alguns problemas: um deles a competição pelo espaço com outros organismos (aquilo a que hoje chamamos a competição com infestantes, mais conhecidas por ervas daninhas), outro a competição com os outros organismos que se alimentavam das mesmas plantas (aquilo a que hoje chamamos pragas e doenças). Além disso foi necessário compreender as necessidades destas plantas, as épocas mais apropriadas para semear, plantar ou colher, e as necessidades em água e nutrientes dessas plantas.
A competição pelo espaço com outros organismos poderá ter sido uma das primeiras formas de impacto negativo do homem sobre os ecossistemas: a destruição do coberto vegetal em zonas declivosas retira a protecção da camada biologicamente activa da crosta terrestre, o solo. Sem esta protecção o solo desagrega-se facilmente e é arrastado pela água e pelo vento. Isto terá acontecido ao longo de séculos de má gestão do solo, principalmente no sul da Europa. No entanto em muitos locais do mundo o homem criou sistemas de terraços e técnicas de cobertura do solo que minimizam esta erosão.
Agricultura em terraços - imagem daquiA competição com outros organismos foi um problema contornado pela tolerância a algumas perdas, e pela observação dos 'hábitos' desses organismos. Descobriu-se por exemplo que alguns ficavam no solo até à cultura seguinte, portanto seria necessário não cultivar a mesma coisa duas vezes no mesmo sítio sem guardar um intervalo de tempo. Assim se inventaram as rotações. Descobriu-se que algumas plantas eram mais sensíveis que outras ao ataque destes organismos. Por isso, sempre que possível guardava-se a semente que produzia melhor, e esta seria também a menos susceptível a ser atacada por outros.
Estas são duas boas práticas hoje recomendadas pela agricultura biológica: a rotação de culturas e a selecção e utilização de cultivares resistentes. Infelizmente esta ultima medida foi largamente descuidada no século XX pelos melhoradores de plantas e animais, uma vez que o recurso a químicos dispensava a resistência a pragas e doenças. Por isso se aumentou tanto a dependência dos químicos. O desaparecimento das variedades tradicionais (cultivares é o termo correcto quando estas são obtidas pelo homem) torna ainda mais difícil o acesso a variabilidade genética que poderia conter resistências a doenças e pragas, e o monopólio do comércio de sementes por grandes empresas que também comercializam químicos pode ser muito perigosa. (Para mais informações sobre este assunto ler aqui , aqui e aqui).
Outras observações permitiram adoptar medidas pontuais para cada cultura para contornar os ciclos das pragas e doenças. Sem os conhecimentos científicos a que tivemos acesso nos últimos séculos este processo dependia da observação atenta e da tentativa e erro, processo que naturalmente não deve ser posto de parte, tendo hoje a ajuda da ciência. Neste aspecto os agricultores de hoje têm a vida facilitada. A maior parte das pragas e doenças que atacam as culturas está bem estudada e caracterizada. São conhecidos os ciclos de vida e os factores que influem nestes. Existem, para grande parte das pragas e doenças, medidas ecologicamente aceitáveis e eficientes na prevenção e controle destes organismos, que implicam no entanto um bom conhecimento destes e da sua interacção com o ecossistema. No passado as pragas e doenças provocaram ocasionalmente grandes perdas e consequentemente fomes e mudanças sociais (por exemplo, a grande fome irlandesa do século XIX foi provocada pelo míldio da batateira, Phytophthora infestans). Hoje o conhecimento científico permite-nos ter mais conhecimento sobre os organismos, mas também sobre a nossa vulnerabilidade perante as mudanças aceleradas dos ecossistemas e o seu impacto sobre o equilíbrio ecológico, que também se sente nos ecossistemas agrários.
O problema de suprir as necessidades das plantas cultivadas foi sendo resolvido pelo homem ao longo dos séculos através da observação e da experimentação. Terá provavelmente observado que a proximidade com matéria orgânica em decomposição ou semi-decomposta favorecia o desenvolvimento das plantas. A domesticação de animais para alimentação e para o trabalho fornecia grandes quantidades de matéria orgânica de óptima qualidade, e portanto uma boa utilização para esta matéria orgânica que de outra forma se tornaria num resíduo indesejável. Sabemos hoje que os excrementos animais são ricos em azoto, um dos nutrientes necessários em maior quantidade, dificilmente armazenados no solo, e que portanto devem ser repostos regularmente neste. Sabemos também que uma das melhores formas de suprir a nutrição das plantas é fazê-lo pela mesma forma que acontece na natureza, isto é através da decomposição primária e secundária da matéria orgânica. Sabemos ainda que o húmus é uma forma estável de matéria orgânica, que se forma pela decomposição de matéria orgânica vegetal, e que antes de se decompor definitivamente dá ao solo excelentes propriedades. Por outro lado a presença dos inúmeros organismos que participam na decomposição permite relações ecológicas complexas que influem na abundância de organismos indesejáveis para o agricultor. O húmus forma-se quando a decomposição de matéria rica em celulose se dá com quantidades apropriadas de azoto. As camas animais, uma mistura de plantas e excrementos eram uma boa fonte de húmus. No entanto poderiam ser demasiado ricas em azoto e 'queimar' as plantas, razão pela qual os agricultores aprenderam a fazer pilhas deixadas a 'curtir' durante algum tempo - ou seja a compostar.
Húmus - imagem daquiEstas são então as áreas de maior intervenção do homem no ecossistema agrário: a fertilização e a protecção das culturas. As formas de o fazer de uma forma ecológica serão exploradas nos próximos posts. É, no entanto, sempre importante olhar a agricultura como uma intervenção num ecossistema, perceber as complexas relações nesse ecossistema, e entre a intervenção humana e as suas consequências, directas e indirectas.

